A Tríade da Aprendizagem: Psicopatologia, Desenvolvimento Emocional e Processos Cognitivos da Infância

Sem categoria
Postado por praxis em 18/dez/2024

A Tríade da Aprendizagem: Psicopatologia, Desenvolvimento Emocional e Processos Cognitivos da Infância

Por Francinéia Fabrizzio – Instituto Espaço Práxis

Introdução

A aprendizagem é um fenômeno multifacetado que envolve dimensões emocionais, cognitivas e subjetivas. Este artigo propõe uma análise integrada da tríade essencial que sustenta os processos de aprendizagem infantil: a psicopatologia, o desenvolvimento emocional e os processos cognitivos. Com base em referenciais da psicanálise, psicologia do desenvolvimento e psicopedagogia, o objetivo é oferecer uma leitura clínica e educativa que contribua para intervenções éticas e eficazes.

1. Compreendendo a Tríade da Aprendizagem

A tríade da aprendizagem compreende três eixos fundamentais:

– Psicopatologia: quadros clínicos e sintomas psíquicos que impactam o desenvolvimento escolar.

– Desenvolvimento emocional: condições afetivas e vinculares que possibilitam a simbolização e o investimento no saber.

– Processos cognitivos: funções mentais como atenção, memória, linguagem e raciocínio.

Esses eixos estão interligados e demandam uma escuta clínica capaz de apreender a singularidade de cada sujeito em sua totalidade.

2. A Contribuição da Psicanálise

Segundo Freud (1914), a aprendizagem está ligada à capacidade do sujeito de investir libido nos objetos de conhecimento. Melanie Klein (1957) ressalta que as angústias primitivas influenciam diretamente a relação com o saber. Donald Winnicott (1965) enfatiza a importância do ambiente suficientemente bom como sustentação simbólica para a aprendizagem. A partir dessas contribuições, compreendemos que o saber pode ser vivido como ameaça ou possibilidade, a depender da organização psíquica e da experiência relacional da criança.

3. A Visão da Psicologia do Desenvolvimento

Jean Piaget (1970) concebe a aprendizagem como resultado da equilibração entre esquemas mentais e meio ambiente. Lev Vygotsky (1934) propõe a zona de desenvolvimento proximal, destacando o papel mediador do outro na construção do conhecimento. Esses autores reforçam a ideia de que a aprendizagem é ativa, social e situada.

4. A Abordagem Psicopedagógica

Alicia Fernández (1991) propõe a escuta do sintoma de não-aprendizagem como expressão subjetiva. Jorge Visca (1990) compreende a aprendizagem como ato vinculado à identidade do aprendente. A psicopedagogia oferece instrumentos para avaliar as funções cognitivas articuladas ao contexto emocional e escolar, possibilitando intervenções interdisciplinares mais precisas.

5. Psicopatologia e Aprendizagem

Transtornos como TDAH, dislexia, TOD, disgrafia, discalculia e TEA são frequentemente associados a dificuldades escolares. No entanto, o olhar clínico deve ir além da classificação diagnóstica, reconhecendo a função psíquica do sintoma como expressão de sofrimento subjetivo e necessidade de escuta.

6. Desenvolvimento Emocional e Disponibilidade para Aprender

O desenvolvimento emocional cria as bases para que a criança possa investir simbolicamente na aprendizagem. Vínculos frágeis, negligência e instabilidade afetiva podem comprometer profundamente a capacidade de aprender. A escola deve ser pensada como espaço de escuta, vínculo e reconhecimento subjetivo.

7. Foco, Atenção e Escuta Qualificada

A dificuldade de foco muitas vezes reflete um estado de angústia e não uma disfunção neurobiológica. O investimento libidinal no saber depende de condições afetivas mínimas que favoreçam a concentração. O foco é, portanto, uma consequência da relação do sujeito com o desejo de aprender.

8. A Clínica e o Posicionamento Ético do Profissional

O trabalho clínico exige postura ética e escuta fundamentada. O profissional não deve projetar suas crenças pessoais, mas sustentar um olhar técnico e comprometido com a singularidade do sujeito. A intervenção não pode ser invasiva, mas orientada pelo tempo psíquico da criança. A supervisão constante e a formação teórica são pilares da prática ética e transformadora.

Considerações Finais

Pensar a tríade da aprendizagem é compreender que o ato de aprender é atravessado por múltiplos determinantes. O trabalho clínico e educacional deve acolher a complexidade do sujeito e construir intervenções que respeitem seu tempo, sua história e sua subjetividade.

Referências

– Fernández, A. (1991). *A Inteligência Aprisionada: abordagens psicopedagógicas clínicas da aprendizagem*. Artes Médicas.

– Freud, S. (1914). *Introdução ao narcisismo*. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Vol. XIV. Imago.

– Klein, M. (1957). *Inveja e gratidão e outros trabalhos*. Imago.

– Piaget, J. (1970). *A psicologia da criança*. Bertrand Brasil.

– Vygotsky, L. S. (1934). *Pensamento e linguagem*. Martins Fontes.

– Visca, J. (1990). *Epistemologia convergente: um modelo de abordagem psicopedagógica*. Dimensão.

– Winnicott, D. W. (1965). *O brincar e a realidade*. Imago.