Por Francinéia Fabrizzio – Instituto Espaço Práxis
A dislexia é uma condição do neurodesenvolvimento que impacta diretamente os processos de
leitura, escrita e soletração, mesmo quando há inteligência preservada e acesso à
escolarização. Reconhecida pela Associação Internacional de Dislexia (IDA) como uma
dificuldade específica de aprendizagem de base neurobiológica, a dislexia exige não apenas
atenção no ambiente educacional, mas, sobretudo, um olhar clínico e multidisciplinar que
compreenda a singularidade de cada criança e seu percurso cognitivo e afetivo.
Causas e Fundamentação Neurobiológica.
As pesquisas neurocientíficas das últimas décadas apontam para uma base hereditária e
genética na origem da dislexia. Estudos com neuroimagem funcional (Shaywitz, 2003)
evidenciam padrões atípicos de ativação em áreas do hemisfério esquerdo responsáveis pelo
processamento fonológico, como o giro angular, o giro supramarginal e a área de Wernicke.
Segundo Galaburda e colaboradores (1994), alterações microscópicas na estrutura cerebral de
indivíduos com dislexia indicam uma disfunção no processo de migração neuronal durante a
gestação.
Manifestações e Formas de Dislexia
A dislexia não é homogênea em sua expressão. Diversos autores, como Boder (1973),
classificam-na em formas diferentes, entre elas: Dislexia Disfonética, Dislexia Diseidética e
Dislexia Mista. Crianças disléxicas geralmente apresentam atraso na linguagem oral,
dificuldades em memorizar sequências, ler e escrever fluentemente, compreender textos e
copiar da lousa. É comum ainda a presença de sinais associados como desatenção, baixa
autoestima e dificuldades de organização temporal e espacial.
A Importância da Avaliação Multidisciplinar
A avaliação da dislexia deve ser ampla, técnica e multidimensional. Psicopedagogos,
psicólogos, fonoaudiólogos e neurologistas precisam atuar em conjunto para uma análise que
envolva histórico de desenvolvimento, testes cognitivos e pedagógicos, funções executivas e
consciência fonológica. Como destaca Alicia Fernández (1991), o sujeito que aprende é
atravessado por sua história, seus vínculos e seu desejo. Portanto, a avaliação não deve
reduzir-se a testes normativos, mas compreender o “como” cada criança aprende, os obstáculos
subjetivos que enfrenta e as possibilidades de construção de novos caminhos simbólicos.
Caminhos de Intervenção e Acompanhamento.
O diagnóstico de dislexia não é uma sentença de incapacidade, mas um ponto de partida para
estratégias que respeitem o ritmo e o estilo cognitivo do aprendente. A atuação
psicopedagógica deve focar na ampliação das vias de acesso à linguagem escrita, utilizando
jogos fonológicos, atividades multissensoriais e mediação individualizada. O apoio à família e à
escola é essencial para promover um ambiente emocionalmente seguro.
Considerações Finais
Reconhecer a dislexia como uma condição legítima do neurodesenvolvimento é um passo
importante para a inclusão e a valorização da diversidade cognitiva. Acredito que cada criança
possui uma forma singular de se relacionar com o conhecimento, e que o cuidado precisa ir
além da técnica – ele é, antes de tudo, um compromisso ético com a escuta, o afeto e a
construção de novos sentidos. Promover o diagnóstico responsável, as intervenções adequadas
e o suporte contínuo às famílias é parte da nossa missão no cuidado integral à saúde emocional
e ao desenvolvimento das potencialidades de cada sujeito.
Referências