Masking na Infância e Adolescência: O Silenciamento Invisível das Neurodivergências no Contemporâneo

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Postado por praxis em 29/abr/2025

Masking na Infância e Adolescência: O Silenciamento Invisível das Neurodivergências no Contemporâneo

Francinéia Fabrizzio – Instituto Espaço Práxis
Resumo
O presente artigo propõe uma reflexão teórico-clínica sobre o fenômeno do masking em
crianças e adolescentes, especialmente entre sujeitos neurodivergentes. A partir de uma
abordagem interdisciplinar — que integra psicologia do desenvolvimento, psicanálise e
neurociência — discute-se como o esforço de camuflar características autênticas pode
produzir sintomas secundários como ansiedade, baixa autoestima, dificuldades escolares e
crises de identidade. A invisibilização do sofrimento emocional por trás do comportamento
“funcional” é analisada como um dos sintomas mais preocupantes da infância
contemporânea.

  1. Introdução
    Na atualidade, crianças e adolescentes vivem sob o impacto de exigências sociais
    crescentes: desempenho escolar, sociabilidade padronizada, controle emocional precoce e
    adaptabilidade constante. Para aqueles cujas experiências subjetivas e cognitivas fogem ao
    padrão, como nos casos de autismo, TDAH, superdotação e dislexia, a pressão por adaptação
    gera um comportamento silencioso e sofisticado: o masking
  1. O que é Masking?
    Masking refere-se ao processo de esconder comportamentos, sentimentos ou dificuldades
    internas a fim de se ajustar às normas externas. É um fenômeno observado com frequência
    em crianças neurodivergentes que, mesmo em sofrimento, desenvolvem estratégias para
    parecerem funcionais, sociáveis ou “normais”.
  2. Masking em Diferentes Perfis Neurodivergentes
    3.1. Autismo:
    Meninas autistas, especialmente, tendem a apresentar estratégias de camuflagem social.
    Elas observam e reproduzem padrões de comportamento neurotípico, o que retarda o
    diagnóstico e reforça a ideia de “timidez”.

3.2. TDAH:
Crianças com TDAH desenvolvem formas de masking por medo de punições ou exclusão.
Muitas vezes, comportam-se de forma excessivamente cautelosa ou tentam compensar
falhas atencionais com carisma ou submissão.
3.3. Dislexia:
O esforço para esconder dificuldades na leitura leva ao desenvolvimento de estratégias de
camuflagem. Isso pode causar interpretações equivocadas, como falta de interesse ou
rebeldia.
3.4. Altas Habilidades/Superdotação:
Alunos superdotados muitas vezes disfarçam suas habilidades para evitar rejeição, ou
exageram sua performance para corresponder às expectativas adultas, sofrendo com
perfeccionismo e crises de identidade.

  1. Consequências do Masking
    As principais consequências observadas do masking contínuo incluem:
  • Ansiedade e depressão
  • Burnout emocional e social
  • Baixa autoestima
  • Comportamentos autolesivos e psicossomáticos
  • Dificuldades de pertencimento
    A escuta clínica precisa considerar que o sofrimento mais agudo muitas vezes não está nas
    crianças que gritam, mas nas que silenciam.
  1. Implicações Clínicas e Educacionais
    Educadores, psicólogos e psicopedagogos precisam estar atentos ao masking como sinal
    clínico. A avaliação deve ir além do comportamento observável. A intervenção terapêutica
    deve trabalhar o reconhecimento da identidade autêntica, fortalecendo espaços onde a
    criança/adolescente não precise mascarar-se para ser aceita.
  1. Conclusão
    O masking é um fenômeno invisível, mas devastador, que revela a falência dos espaços de
    escuta e acolhimento na infância e adolescência. Reconhecê-lo é uma forma de devolver às
    crianças o direito de serem quem são.
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    Psicóloga Francinéia Fabrizzio – Instituto Espaço Práxis | CRP 06/139084
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